Proposta de Encenação

Parasitas – iminência e derrota

A proposta de encenação do texto teatral ‘Parasitas’, detalhada a seguir, apóia-se em princípios fundamentais dos quais devem decorrer as escolhas técnicas e estéticas utilizadas para a criação do espetáculo. Apresentamos abaixo um resumo de cada princípio acompanhado de uma explicitação da aplicação do princípio nos diversos aspectos da montagem, lembrando que a nomenclatura utilizada não está atrelada a conceitos academicamente cunhados, a não ser quando indicado entre parênteses o sobrenome do autor.

Nossa proposta não é exaustiva, ou seja, não dá conta de todas as questões envolvidas em uma montagem, pois acreditamos fortemente que o teatro é feito na ação e na prática e, por isso, não podemos antecipar diversos elementos decisivos, porém difíceis de serem decididos sem experimentações, como é o caso da iluminação e da trilha sonora/sonoplastia.

Princípio Geral

Artificialidade:

Entendemos o teatro como uma forma artística cuja potência pode caracterizar-se pelo contraste que é capaz de causar com aquilo que não é a arte. Com isso queremos dizer: teatro é criação de realidades outras, artificiais. Não é a vida real e não deve, em momento algum, querer confundir-se com ela. Não há razões, pois, para tentar iludir ninguém com nossa montagem. Acreditamos que já existem, em excessiva abundância, inclusive, diversos artefatos culturais tentando realizar imitações da realidade e falhando miseravelmente em suas tentativas, o que acaba por confundir o público e gerar ilusão quanto à ‘verdade’ da arte do ator, além de outras ilusões. Estamos nos referindo precisamente a novelas de televisão e outras formas narrativas de massa. O teatro deve engendrar uma visão de mundo enquanto reflete sobre si mesmo. Se há uma crise em torno do conceito de arte em nosso tempo, às obras de arte cabe a tarefa de tentar redefini-lo, ainda que provisoriamente. Esta não é sua única tarefa, no entanto.

Repercussão de tal princípio na montagem:

Ringo na cadeira de rodas: pode se levantar a qualquer momento, caminhar e mexer as pernas à vontade, pois não queremos que ninguém acredite que o ator é realmente paralítico. Entendemos a paralisia do personagem como característica absolutamente verdadeira, porém altamente funcional em relação à visão de mundo presente na peça. Assim, Ringo é, efetivamente, paralítico, porém sua paralisia não se resume à incapacidade de se mover fisicamente. Se ele se levanta e anda, porém volta à cadeira, compreende-se que trata-se de uma paralisia muito mais ampla.

Uma atriz (mulher) interpreta o personagem Petrik: é irrelevante que o/a ator/atriz que interpreta um personagem seja do mesmo sexo que o próprio. É importante que o ator/atriz esteja atuando em função de uma percepção do gênero do personagem. Petrik não nos parece um personagem com uma identidade de gênero muito definida, pois em determinados momentos do texto se furta em desempenhar o papel masculino tradicionalmente atribuído aos homens. Não sabemos se Petrik é realmente um homem. Temos diversas dúvidas, inclusive, sobre o que venha a ser ‘um homem’. Escalar uma mulher para interpretar Petrik traz à montagem a possibilidade de discutir, sem palavrório, a questão do gênero, convidando o espectador a reformular suas idéias sobre o assunto através de um estranhamento sem maiores explicações. A atriz fará um personagem, uma pessoa que se chama Petrik e age como Petrik. Este tipo de estranhamento já foi explorado pelo diretor concorrente em trabalho anterior, o espetáculo ‘Agora eu era’ apresentado em dezembro de 2009 no Teatro de Arena/Porto Alegre.

Outros Princípios

Não-redundância:

A leitura do texto ‘Parasitas’ remete-nos, em um primeiro momento, a ambientes lúgubres, pouco iluminados, sujos, mal-cheirosos e tristes. Entendemos que explorar esta linha estética em uma montagem do texto seria redundante. Nas falas dos personagens, já estão presentes evocações a imagens pesadas, sombrias e desoladoras. O texto está carregado de pessimismo, podridão, loucura e morte. Sublinhar tais traços seria, antes, neutralizá-los. Queremos, ao contrário, ressaltar seu potencial através de escolhas estéticas contrastantes – que possam ampliar seu significado, multiplicar seus efeitos, instaurar relações inauditas. Entendemos tais traços como fruto da condição humana dos personagens, não de suas circunstâncias objetivas. Suas casas não precisam ser sujas para que se sintam imundos.

Repercussão de tal princípio na montagem:

Cenário: o cenário será constituído de um único elemento, uma nuvem suspensa, pairando sobre o espaço cênico. Com a nuvem, articulamos, em um mesmo elemento, as idéias de leveza, iminência (sempre pode chover) e sufocamento. A utilização de um único elemento que não seja um item da arrumação de uma casa é importante para a criação de um espaço cênico único para ambientes variáveis. Como Betsy vai à praia, é interessante também pois estabelece que está sempre nublado (ela se queima pelo mormaço, talvez). Esta nuvem pode ser cor-de-rosa (pois pode ser vista também como um enorme algodão doce), evidenciando a polivalência do elemento ‘nuvem’. (Será que os personagens não enxergam que têm um algodão doce sobre suas cabeças e que bastaria esticar o braço para alcançá-lo? Imaginamos que esticar o braço seja talvez pedir demais aos personagens.) Será feita de fibra de silicone e papelão: papelão por dentro, fibra de silicone por fora. Será suspensa por uma estrutura aparente (princípio da artificialidade) confeccionada em metal. Poderá ser utilizada de forma a causar a impressão de mau-funcionamento do cenário (princípio da artificialidade).

Adereços: a cobra será representada por um bicho de pelúcia feito para parecer uma cobra. Petrik, no entanto, tratará a cobra como um animal vivo normal, desses que vemos na selva. Talvez Friderike não esteja tão certa de que a cobra é um animal vivo. A cobra viverá dentro de um berço de bebê. Ela será alimentada por um rato igualmente de pelúcia (ou modelado em material comestível, para que Friderike possa engoli-lo).

Figurino: utilizaremos vestuário contemporâneo, condizente com pessoas de classe-média com informação de moda. Roupas limpas, coloridas e bem feitas. No entanto, usaremos uma barriga artificial e postiça para caracterizar a gravidez de Friderike, feita de enchimento ou borracha e colocada sobre a roupa (princípio da artificialidade). Betsy será caracterizada como uma mulher muito bem vestida, uma pessoa que tenta aparentar ter uma posição social superior à sua. Algo em sua caracterização, no entanto, denuncia essa tentativa. Multscher será caracterizado como alguém que aparente ter atropelado Ringo com uma Ferrari, não com um Fusca. Ringo vestirá pijama e roupão, pois está muito bem adaptado à sua vida de paralítico e não tem intenção nenhuma de deixar de sê-lo.

Iminência:

Nossa interpretação do texto destaca o que nos parece uma funcionalidade marcante das situações que se apresentam: a iminência. Tudo parece estar sempre prestes a acontecer, mas não acontece ou acontece pouco. Os personagens parecem reivindicar seus desejos no plano do discurso, raramente no plano da ação. Em outros momentos, dizem uma coisa e fazem seu oposto. Queremos explorar esta idéia – de vida defeituosa, em que desejos estão prestes a se realizar, porém estão interditados por um embotamento da capacidade de ação.

Repercussão de tal princípio na montagem:

Na preparação de atores:

Fisicalização das emoções (Artaud): o corpo do ator será responsável por veicular esta tensão gerada entre desejo e embotamento. A saída para esta tensão, isto é, a forma encontrada pelos personagens para administrar seus conflitos, assim, ficará ilustrada em espasmos, partituras, repetições e estilizações, criando arremedos de ação.

Energias corporais (Lessac): a preparação do ator será conduzida com o objetivo de gerar uma presença cênica carregada de verdades, porém não de ‘qualquer verdade’: verdades construídas através de exercícios que proporcionem a vivência física das emoções dos personagens. Isto porque o texto de “Parasitas” evidencia corpos carregados de desejos não transformados em ação.

Técnicas de exaustão: exercícios de exaustão procuram colocar o ator em um estado acrítico, possibilitando o surgimento de gestos, emoções e ações menos condicionados.

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